O que preciso é ser natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade
(ALBERTO CAEIRO)
Em Divertida Mente, filme
de 2015, acompanhamos, brevemente, a primeira infância de Riley Andersen, onde
somos apresentados a cinco emoções: alegria, tristeza, medo, raiva e nojo;
sendo que cada uma tem uma função e, conforme vão agindo, dão base a persona de
Riley.
No início da pré adolescência, a protagonista muda de cidade, por conta
de uma oportunidade de emprego para seu pai, e, essa mudança, ainda que
necessária, causa certa confusão em suas emoções, onde a alegria, emoção que
tem governado Riley até então, crê que, independente de qualquer coisa, Riley
tem que ser positiva, animada, feliz; sendo tanto quanto tirânica em relação as
outras emoções que, levando em consideração o contexto, seria mais adequadas de
serem vividas naquele momento. Algo que a alegria demorará a descobrir.
A alegria, tal qual um herói mítico, se vê em uma jornada, mas diferente
dos heróis, essa jornada não é por florestas, vales, casebres e castelos, mas
sim, no interior de Riley, onde a conhecerá melhor, os vários outros elementos
que a compõe e, após ter dado a volta ao mundo, a semelhança de Carol,
protagonista de Carol e o fim do mundo (2023), descobrirá que o Riley
precisava, estava o tempo todo ali ao seu lado, não só no caminho percorrido,
mas sim na própria cabine de comando de onde saíram: a tristeza.
Em uma época de positividade, inclusive a tóxica, podemos demorar a
entender, igual a Alegria que, há momentos que não só está tudo bem ficar
triste, ser triste, viver a tristeza, mas sim que é necessário. Que
determinadas situações são enfrentadas não com um rosto erguido e um sorriso
radiante. Que determinadas situações são enfrentadas lançando mão do
recolhimento, do choro e, se preciso, diálogo.
Apenas quando a Tristeza assume o painel de comando das emoções de
Riley, e essa, diz aos seus pais que não queria ter mudado de cidade, que sente
falta de sua vida de antes, da cidade, da escola, das amigas, que está
assustada, confusa, enraivecida e, sobretudo, triste, é que as tão necessárias
lágrimas vem e, junto a elas o acolhimento feito por seus pais, e, quem diria,
alguma alegria. É paradoxal, porém real: somente quando vivo a emoção que
precisa ser vivida em determinado momento é que sou feliz, talvez, por isso Alberto
Caeiro, o poeta, tenha escrito:
“Se
eu pudesse trincar a terra toda/E sentir-lhe um paladar,/Seria mais feliz um
momento.../Mas eu nem sempre quero ser feliz./É preciso ser de vez em quando
infeliz/Para se poder ser natural.../Nem tudo é dias de sol,/E a chuva quando
falta muito pede-se,/Por isso tomo a infelicidade com a felicidade/Naturalmente,
como quem não estranha/Que haja montanhas e planícies/E que haja rochedos e
erva.../O que preciso é ser natural e calmo/Na felicidade ou na infelicidade,/Sentir
como quem olha,/Pensar como quem anda,/E, quando se vai morrer, lembrar-se de
que o dia morre,/E que o poente é belo e é bela a noite que fica.../Assim é e
assim seja. (CAEIRO, 2001, p. 55).
Portanto, o que é preciso é não se deixar enganar pela ideia,
socialmente tão bem aceita que, temos a obrigação de sermos felizes, e mais que
isso, que ser feliz, é necessariamente, estar continuamente alegre. Não.
Felicidade é viver o que se deve viver, saudando a emoção que o momento pede.
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