ESCRAVIDÃO OU NENHUMA OUTRA VIDA ME INTERESSA
"E nós? Ambos estupidamente honestos, iguais em absolutamente tudo como duas gotas de d'água (...), nós seriamos mesmo capazes de oprimir um ao outro, de desejar de fato "nos dilacerarmos"?"
(O jardim dos Finzi Contini - Giorgio Bassani)
“Escravas do amor”; eis um título que, se
eu visse em uma livraria física ou virtual, publicado hoje, não compraria,
simplesmente não me atrairia, o repeliria quase que num átimo, e pensaria: mais um romance piegas à la Sabrina. Mas nesse o que chamou
minha atenção não foi o nome do livro, mas sim o do autor - o famoso que disse
“Toda mulher normal gosta de apanhar”.
“Toda mulher normal gosta de apanhar”; penso que, a despeito de toda polêmica que essa afirmação possa gerar hoje
(como gerou na época em que foi enunciada), Katja - umas das participantes de
Casamento às Cegas Suécia, concordaria, afinal o que a repele no homem que
aceitou por noivo foi “ele é gentil demais, não me confronta”. A mesma Katja
que adorava dizer “eu ainda não terminei” a cada discurso seu que ele começasse
a fazer alguma observação. O relacionamento não vingou porque ele não bateu
nela. Como ela mesma disse sorrindo “isso a gente não tentou”.
Logo, gostar ou não de apanhar, eis a
questão.
Para Nelson Rodrigues, qualquer mulher
normal dirá que sim, tanto é que uma das mocinhas de Escravas do Amor, a minion
Ligia, no auge dos seus 38 anos de idade, com pelo menos duas décadas de vida
conjugal, apenas após levar uma bofetada do marido, vê-se inundada de amor como
nunca antes. O tabefe e na sequência alguns beijos. Em Nelson, ambos têm um quê
de místico.
Não em vão apresenta o beijo, como um gesto capaz de suscitar em quem o recebe o amor que já sente por quem lhe deu, sendo ainda a prova cabal de que se é amado, e com a mesma intensidade que se ama. É o que nos indica, além de outros trechos, o diálogo que ocorre entre dois de seus personagens, Rafael e Claudio:
- Quer uma maneira
de liquidar de vez a situação?
- Quero.
- Pois faça o
seguinte: vá procurar essa fulana; pegue-a à força, beije-a na boca. Mas cuidado
para ela não escapulir. Um beijo falhado destrói às vezes, ou quase sempre
todas as possibilidades, é preciso que você a domine, a imobilize (...). Você a
beija. Acontecerá o seguinte: se ela gosta de você, deixará de resistir para o
futuro.
- E se não gostar?
- De qualquer
forma, é um teste definitivo. (p. 487).
Na visão do personagem o amor é algo a ser
obtido, inclusive e/ou quase sempre mediante à força. Pouco importando a que
estado civil pertença aquela que se quer conquistar. Não importando também o
grau de parentesco que se tem com o ser em questão. Amo-o(a) e nada mais importa, esta é a tônica
do pensamento dos personagens, não apenas em Escravas do Amor, mas em toda a
obra de Nelson Rodrigues.
De maneira que o objeto do meu amor corresponder,
é uma questão de ação assertiva minha, de beijo.
As obras do autor fazem crer que para ele
a atitude do beijo deve sempre vir do homem. O que algumas mulheres podem
questionar, assim como questionaram o “toda mulher normal gosta de apanhar”,
talvez, por pensar nisso que ele, em Minha vida (romance autobiográfico de
Suzana Flag – um dos seus pseudônimos) tenha se posto a ser questionado por uma
de suas personagens:
-
Achei interessante a atitude de Hermínia. É raro que uma mulher faça aquilo.
-
Aquilo o quê? – perguntei.
- Então, você não
viu? Aquilo que ela fez com Jorge. Teve a iniciativa de beija-lo (...). Achei
isso bonito, linda essa coragem! Você não acha Suzana?
-
Depende.
-
Como depende?
(...)
-
A mulher que faz isso está tomando uma atitude que só o homem deve ter.
-
Bobagem! (...) Por que a mulher deve sempre esperar que o homem faça?
-
Uma questão de pudor.
(...)
- Por exemplo. Se
eu gosto de um homem e tenho vontade de beija-lo? Diga – que é que devo fazer?
-
Nada.
(...)
-
Nada? Você acha, então, que não devo fazer nada?
-
Talvez esperar que ele tome a iniciativa.
Ela
se desesperou:
- Mas se ele não
tem? Percebe? Se ele não faz nada, se eu ando em torno dele, à toa e ele não
decide? (p. 168 e 169).
Assim, para Susana, (pseudônimo ou alter
ego de Nelson?), o homem tem o dever de beijar a mulher que o interessa. A
mulher o de esperar que o beijo ocorra. E, para ambos, por tempo suficiente,
como se se tratasse de alguma espécie de medicamento que para surtir efeito
carece de um tempo mínimo de contato com quem se quer atingir. Não à toa o
conselho de Rafael é de que “fulana” deve ser imobilizada, dominada, sem chance
alguma de escapatória.
Dominado é Cláudio pelo discurso de
Rafael, tanto que ao se despedirem, o texto nos dirá que ele está “mais feliz,
mais confiante, com um sentimento de otimismo na alma” (p.487). Porque fica
assim este personagem? Será porque a impressão que tem é de que o beijo é uma
espécie de porção mágica de efeito certo e inquestionável, e que em seu rótulo
só se ver os possíveis benefícios, não conseguindo-se de modo algum enxergar as
pequenas letras que dizem que se trata de uma faca de dois gumes, ou seja,
tanto pode confirmar que o outro o ama, como que não o ama.
Possíveis efeitos colaterais, isto
é, o tiro sair pela culatra, é simplesmente ignorado. Não somente por eles, mas
por nós outros também! Exemplo disso é o Reality Show Ultimato, em que casais são
reunidos pra decidirem se porão um ponto final na relação ou se deixarão de ser
namorados para tornarem-se marido e mulher.
O pequeno detalhe é que um dos dois faz o
ultimato: ou casa ou vaza, e o outro o recebe. Seria o ultimato um novo tipo de
beijo? Se sim, vale a pena ter um casamento com alguém que precisa ser posto contra
parede pra que se decida pelo sim? A dúvida, nesse caso, não é sinônimo de “não”?
Vale buscar confirmação de amor mediante uso da força? É assim que o amor é
obtido? Mais que isso: é assim que o amor deve ser obtido?
Para o místico revolucionário, sim,
afinal, tanto o tabefe quanto o beijo atordoam, deixam o ser um tanto quanto
confuso, pra só então, lentamente, a água ir desturvando-se e vê-se com toda a
limpidez do mundo que de fato se ama alguém. Alguém que te roubou um beijo.
Alguém que te forçou aquilo que ele quer! E que com sua atitude demostrou que é
isso que o outro também quer. Ocorre, portanto, uma espécie de despertar.
Mas, de todo modo: quais as chances disso
dar certo na vida real? Não sei. O que sei é que “Escravas do amor” é um título
que se visse em uma livraria física ou virtual, publicado hoje, não me atrairia.
Mas que bom que havia nele um magnético nome, pertencente a um ser que te
estapeia e enche de beijos e por fim obtêm o seu amor. De maneira que o meu eu
leitor simplesmente aceita receber os que Nelson Rodrigues distribuiu em seus
livros (inclusive um dos tabefes vem em um título horroroso). E que revela o
que sou deste autor: escrava.
Ótimo texto de estreia!
ResponderExcluirNelson Rodrigues realmente é o pai das novelas da globo.
Obrigada, Udo! Fico muito feliz com seu apoio! E, por ter lido meu texto!
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