Por todas nós - Kintsugi 

                                                                                                                        Lara Ramos Oliveira


Não sei dançar valsa, e só posso agradecer a Deus por isso não ser pré requisito pra ouvi-la. Sou agradecida. Já meus ouvidos não sei se podem dizer o mesmo, afinal apenas após ouvir Danúbio Azul dezesseis vezes seguidas, em meu fone cor de rosa, que o pobre teve um pequeno intervalo. E somente porque ao passar pela sala, uma manchete do telejornal chamou minha atenção.

Logo o fone foi parar no pescoço, pausei o Danúbio e pus-me a assistir a matéria. Estava ainda no começo. E dizia: “Homem consternado ao encontrar sua casa, inexplicavelmente, toda destruída.” O repórter já em frente a casa em questão fazia perguntas ao dono:

“Então, conta pra gente o que aconteceu.”

“Eu viajei com minha namorada há duas semanas, fui curtir o litoral, descansar um pouco, sabe como é. Cheguei em casa há algumas horas e estava tudo quebrado. Ai fui na delegacia pra averiguarem o que aconteceu, quem fez isso.

“E o senhor suspeita de quem fez isso?’

“Olha eu já tive muitas namoradas loucas, é possível que tenha sido alguma delas.”

“E o senhor teve algum termino recente?”

“Ah, sim, mais ou menos, já fazem duas semanas.”

“Mas o senhor não começou a viagem com a namorada há duas semanas?”

“Sim. Com a nova. Comecei namorar ela e terminei com a outra. Meio louca, não confiável, ameaçadora, mal. Sabe como é, né?”

Sentada no sofá, a lixar as minhas unhas, só consigo pensar que é bem típico dos homens classificaram as exs de loucas, e quanto mais sã, mais como loucas são classificadas. Se bem que, convenhamos, talvez, relacionar-se com um babaca já seja indicio de uma loucura incipiente, a espreita, esperando só uma circunstância que a deflagre, igual a pipoca, na panela, no óleo quente.

Continuo a assitir a matéria, e agora que mostram o interior da casa da para ver que ficou um estrago mesmo. Não há parede branca que não esteja riscada de batom. Nunca vi tanto vidro espalhado ao chão. Como um ser humano conseguiu quebrar em tantos pedaços? Vai ver quebrou em correspondência a como está seu próprio coração. Pois, não raro, um objeto consegue externalizar como estamos. Nada de tecido escapou de ser rasgado, a começar pela camisa original do time. Será que as cinzas que o telejornal mostra são das chuteiras? Há pelo menos uns 700 lápis de cores apontados até o talo; quem entra na casa de alguém pra bancar a professora de educação infantil!? Oh, vai ver a autora do crime seja professora de educação infantil. Os eletrodomésticos estão todos queimados, e apresentam rasgos de ponta a ponta. Será que ficou algo inteiro? Ao vivo mostrarão a casa sendo implodida? Melhor aumentar o volume da tv, vai que surge algo mais comovente que Danúbio Azul!? Param de mostrar a casa e voltam ao repórter em frente ao seu portão, acompanhando de outro homem, do qual diz:

“Até o momento a polícia tem uma única testemunha.”

Continuo lixando minha unha, mas já não estou sentada. Aproximo-me da televisão.

“Um chaveiro. E estamos com ele aqui ao vivo. Então, seu Ivan, o senhor que abriu o portão da casa?”

“Sim, fui eu.”

“E porquê?”

“Ue, não é incomum as pessoas ligaram de madrugada pedindo os serviços da gente. A gente vem e faz o que a pessoa pede. Não fica pensando que é alguém tentando invadir uma casa. Ainda mais uma moça de voz tão doce e bonita igual aquela.”

“Então, ela ligou pro senhor?”

“Sim, era meia noite, perguntou se era o chaveiro. Quando confirmei ela perguntou se eu podia vir na V6, Cidade Jardim. Um instantinho e eu já estava aqui.”

“Ai o senhor abriu o portão e a porta sem suspeitar de nada?”

“De nada. A moça além de bonita era bem educada, até agradeceu, disse que a ajudei muito, na hora pensei que estava falando de ter ajudado a não ficar na rua, não a destruir a casa alheia.”

“Causa pena, né, seu Ivan?”

“Causa, não, esse maroto já fez coisa pior com muita menina de um monte de bairro. Estava era demorando uma delas mostrar que podia arrebentar mais que ele.”

Acho que já posso voltar a ouvir Danúbio Azul. Tentar valsar. E ver milhares de “loucas” fazerem exatamente o que eu fiz. O que me dará ainda mais a satisfação de um trabalho bem feito sendo reconhecido e gratidão a Deus por ter me agraciado com uma testemunha que alega que mesmo sendo uma moça bonita ele não saberia descreve-la, pois olhou bem rápido, “não deu pra decorar o rosto”. Mas ele não precisava decorar meu rosto, afinal me conhece, a mim e ao maroto.


Comentários

  1. Ótimo texto e de tom sarcástico,tenho até medo se existe um rua V8 em Parauapebas.
    Com certeza o meu texto favorito (até agora!).

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