Quando pensei em discurso
de aniversário, há dois meses, acabei começando a escrever três textos
diferentes, e não fazia ideia qual deles prevaleceria. Até que, anteontem,
enquanto lia uma peça de Nelson Rodrigues, me ocorreram umas ideias que não me
permitia me concentrar na leitura, e que, imperiosamente ordenavam: “vá
escrever!” Parece que o texto estava pronto; apenas aguardando ser posto no
papel. E eu, após alguns minutos de relutância, obedeci. Assim, surgiu um
quarto, e aceitou em si apenas um trechinho do que o precedeu, esse lerei
agora, mas, para que bem compreendido fique, preciso dizer que, já que não é de
conhecimento de todos, fui abandonada por minha mãe seis meses após ter
nascido. Dito isso, vamos ao texto.
***
Certa vez um amigo disse que estava aprendendo algo
porque queria utilizar isso para fazer uma homenagem ao seu pai; imediatamente perguntei-lhe se
preferia o seu pai em detrimento de sua mãe. Ele, ofendido, respondeu que
aquilo não era pergunta que se fizesse.
Não passou pelo meu campo de imaginação, que a pergunta
que eu fiz, pudesse ser ofensiva a quem foi criado por pai e mãe; e imagino que
não tenha passado pelo dele, que ela de modo algum é a quem não teve o mesmo
privilegio, isto é, se você só pôde contar com sua mãe, ou apenas com seu pai, a
resposta seria tão obvia que dispensaria a pergunta, mas caso ele fosse feita,
seria vista como uma excelente oportunidade de enumerar um zilhão de motivos
para ter um amor quase louco por um dos dois.
Eu, por exemplo, fui criada apenas pelo papai, e a coisa
mais importante que ele me ensinou foi a ter fé em mim mesma, e nas capacidades
que me foram dadas por Deus. Amo, admiro e respeito profundamente esse homem,
mas não é a ele que dedico essa festa. Essa festa que é uma comemoração a coisa
mais bela já feita por Deus, a vida, dedico ao outro lado da moeda.
Não é a esse homem que não me abandonou que dedico essa
comemoração. É a adolescente que me carregou em sua útero, e me fez vir à luz.
Dedico a Lúcia, minha mãe.
***
Mãe,
quando eu estava pensando em quem convidaria a essa festa, e mesmo quando já
havia posto 85 nomes em um papel, o seu surgiu, não Lúcia, mas minha mãe. Termo
que nunca uso, mas a quem dedico todo o esforço e tempo que dediquei pra que
esse momento acontecesse e esse momento em si. Mãe. Palavra que nunca uso. E a
quem dedico meus esforços festivos, quase carnavalescos.
Mãe, eu gosto de pensar que você fez o que tinha condições
de fazer. E que, ter ficado, podia não ter sido o melhor pra mim. Que vivi o
que vivi porque era preciso que tivesse vivido assim. Era o melhor pra mim ter
sido abandonada por minha mãe ainda bebê. Sei que é algo duro de se dizer. Mas
a verdade, por vezes, é uma rocha.
Não
guardo magoas da senhora, até porque como guardaria algo que nunca tive? Também
não tenho e não guardo raiva alguma. Eu só consigo ama-la, talvez, não por
mérito meu, mas de algum modo Deus me mim, pois é Ele que nos ensina a amar
primeiro.
Estamos
acostumados a ideia de que o pai e a mãe devem nos amar primeiro, pra que
depois nos os amemos. Mas o que se faz quando o pai ou a mãe não ama primeiro?
O que se faz quando o pai ou a mãe é tão ferido que não consegue amar?
Talvez,
devêssemos olhar pra um antigo conto de fadas, pra que sejamos lembrados que
uma fera precisa ser amada primeiro, pra que depois ela ame, como bem disse
Chesterton.
Talvez,
precisemos olhar pra Deus, pra conseguir amar alguém que está fazendo de tudo
pra não ser amado.
É bem fácil amar uma mãe que não apenas está disposta a matar e morrer por você, mas faz um pouco disso todos os dias, passado sono, secundarizando suas necessidades etc. Mas e uma que não fez nada disso? E uma que te jogou em uma lata de lixo? Ame uma mãe que te jogou em uma lata de lixo. Eu te desafio! De repente parece que fiquei agressiva, não é? Não é minha intenção.
Mãe,
a senhora esteve longe de mim por muito tempo, mas se quiser se aproximar
agora, me causará uma imensa felicidade.
Eu
amo muito meu pai. Amo-o porque ele não me abandonou. Ele ficou comigo. E foi
por mim. Eu amo muito meu pai. Amo-o mais do que ter um coração batendo em meu
peito. Mas, se a senhora quiser voltar, a amarei porque me abandonou, ou apesar
de ter me abandonado. A amarei por não ter ficado. E por não ter sido por mim.
A amarei mais do que ter um coração batendo no meu peito. E meu coração já não
pertencera a mim, mãe. Será seu tanto ou mais do que é dele.
Dedico-te
essa festa, Fera.
Com
amor, Lara.
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