Fidelidade é algo que vem do coração
Sentou-se em uma cadeira de plástico branca,
já um tanto quanto encardida, pediu uma cerveja de 600ml ao garçom, mas com os
olhos fitados no marido, que afastava-se em direção ao campo.
Mal terminará de tomar o primeiro gole,
uma senhora de uns oitenta anos de idade sentou ao seu lado. Não teria dado
atenção a presença dela se essa não tivesse, com uma pergunta muito estranha tentado
entabular conversa:
-
Onde estás?
Olhou em torna de si, pra
certificar-se de que não era pra ela a pergunta. Mas estando ambas cercadas de
cadeiras e, de umas poucas mulheres sentadas mais afastadas, não lhe ficou dúvida.
Era com ela. Decidirá fazer o que fazia de melhor: ignorar.
Mas, talvez, a o melhor da velha fosse a insistência:
-
Onde estás?
“Como assim onde estava, a velha era
cega, gaga ou o que?”, pensou. Respirou fundo, olhos ainda fitos no marido e
respondeu:
-
No futebol.
-
E desde quando jogas?
Novamente precisa respirar um pouco
mais fundo antes de responder:
-
Não jogo.
-
Então o que aqui fazes?
Erguendo o copo americano, leva-o um
pouco em direção a velha e a olha de um jeito que diz “isso”.
-
No futebol?
-
Sim.
-
E o bar?
-
O que tem?
-
Não é no bar que bebes?
-
Algumas vezes sim.
-
E porque não dessa vez.
-
Porque meu marido não está lá.
-
Está no futebol?
-
Isso.
-
Na certa ele joga bem.
-
Eu não sei dizer.
-
Então, não vens para vê-lo jogar?
-Venho.
-
Sem saber se joga bem ou mal?
-
Sim.
-
Por que?
-
Para ter certeza de que está de fato
jogando.
-
Então para ti é muito importante que ele jogue?
-
Não.
-
Então porque queres ter certeza de que ele está jogando?
“Essa velha maldita não vai me deixar em
paz!? Era a essa pergunta que ela queria chegar!? Vou responde-la de uma vez
pra ver se isso acaba!
-
Para saber que ele está onde disse que estaria e com as pessoas que disse que
estaria.
-
Ah, começo a compreender teu interesse em futebol, minha filha.
-
Hum.
-
Tens medo de que ele esteja em outro lugar e com outra pessoa.
-
(...).
-
Já fostes traída?
-
Isso não e da sua conta! Até agora fui muito educada! Mas faz tempo que a
senhora passou dos limites!
-
Vejo que isso é um sim.
(...).
-
Quantas vezes?
(...).
-
Eu posso tentar advinha...
-
Apenas uma!
-
Uma que você sabe ou que descobriu?
Olhou pra velha espantada. Que pergunta
idiota era aquela!? Conseguia ser mais idiota, incomoda e inoportuna que as
anteriores. Será possível!? Até então respondia por um quê de educação. No
automático. E somente porque não lhe passará pela cabeça que o marido poderia
se interessar pela gaga. Agora isso de “uma que você sabe ou que descobriu!?”.
Como assim mais de uma!?
-
Só soube de uma porque só houve uma! Uma! Uma! Tá entendendo!?
-
Estou.
A
calma do “estou” da velhinha a acalmará. Percebendo isso a outra pode
continuar:
-
A quanto tempo vocês estão juntos?
Finalmente uma boa pergunta! Essa ela
amava responder! E quando não perguntavam, ela criava conversas em que isso
pudesse ser dito. Ela amava aquelas cifras. E quanto mais aumentassem amaria
mais! Haveria maior gloria pra uma mulher? Quem não morreria de inveja disso?
-
17 anos de casamento. Mas nos conhecemos a vinte e seis anos.
-17
e 26.
-
Isso.
-
E em 17 anos de casamento e 26 que se conhecem, ele teve apenas uma amante?
-
Isso.
-
Sei.
-
Ora, essa!? E você ainda dúvida que tenha sido só uma é!? Olha aqui, você não
se aproveite de ser velha pra se fazer de louca e ficar se intrometendo na vida
dos outros, não viu!? Eu não lhe conheço e não faço questão nenhuma de
conhecer! E não pense que eu ser educada com você lhe dá o direito de ficar
insinuando asneiras sobre o meu marido! A senhora bem tem cara de quem viveu sozinha
a vida toda, e deve morrer de inveja de quem vive bem casada! Ele teve um caso.
Um. E só porque aquelazinha não deu a mínima pra ele ser casado!
-
Você sabe quantas mulheres há no mundo, minha filha!?
-
Agora pronto! Enlouqueceu de vez! O que tem a quantidade de mulheres haver
comigo e com meu marido.
-
Ha, ha, ha, ha!
-
Você pensa que eu não sei!? Pois fique sabendo que sei! São bilhões! Bilhões!
Vi no jornal. Sou informada! Bilhões!
-
Você é informada, então, me diga, desses bilhões de mulheres apenas uma não se
importou se o seu marido é casado?
- Olha
aqui, vamos encerrar essa conversa que não estou gostando nenhum pouco de suas
insinuações!
-
(...)
-
Velha gaga, idiota e intrometida! Pensa o quê que vou baixar minha cabeça pra
você! Eu não baixo minha cabeça pra ninguém! Pra ninguém está ouvindo!?
-
Sim, ouço muito bem. Obrigada por perguntar. E você também ouve?
-
Ora essa, é claro!
-
Então me escute.
-
(...).
-
A traição começa no coração do homem, minha filha.
-
(...)
-
Lá também há uma cadeira onde possas te sentar enquanto bebes e confere se ele
está onde disse que estaria e com quem disse que estaria?
-
(...)
-
Crês em Deus? Crês na bíblia?
-
Sempre que me é conveniente.
Desviara os olhos da velha, pois virá uma
mulher chegar mais perto do campo. Estava ali por causa do seu marido ou ela
também tinha um?
Cinco minutos se seguiram, a velha sabia
que não valia a pena falar com aquela mulher. Sabia que estava diante do tipo
de mulher que mesmo que o marido a espancasse continuamente, não o largaria, e
ainda que ele abusasse da filha do casal, ela não o largaria. Era o tipo de
mulher que em seu coração só a espaço pra sentimentos por uma pessoa, e essa
pessoa não é ela mesma, mas sim ele. Sempre ele. Sabia que a mais detalhada das
explicações seria semente infecunda no coração dela. Mas era velha. E os velhos
tem pouco tempo. E as vezes gostam de usá-lo na inútil tarefa de falar com
terra estéril. Assim, começou:
-
Não me causa nenhuma estranheza que queiras fidelidade, toda mulher quer,
principalmente as casadas. Mas a fidelidade é só o homem não se deitar com
outra mulher? É só ele desviar os olhos quando está em tua companhia? É não encetar
conversa com alguém porque estás por perto?
A mulher não a ouvia. Seus olhos
moviam-se de um lado a outro, pois uma jovenzinha se aproximou mais campo.
Estava ali por causa do seu marido ou ela também tinha um?
-
Sabe, quando eu era novinha não baixava a cabeça pra ninguém. Andava de queixo
empinado. Mais tão empinado que era capaz de sair do lugar e ir pra ponta do
nariz, e iria mesmo, se tivesse como, só pelo prazer de nada ser mais visível
em meu rosto, em minha pessoa do que um queixo pronunciando uma jovem cheia de
suas próprias vontades, e sem nenhuma disposição de abrir mão delas nem mesmo
por um centímetro. Tinha uma vontade de ferro. Acreditava que tinha vindo ao
mundo pra ser servida. Só o que eu queria importava. E os outros que dessem um
jeito de atende-las. Uma a uma. Até a última. Rápido! Sem demora! Entre as
minhas vontades, acho que uma das poucas justas, estava a de receber fidelidade
do meu marido. Toda mulher quer fidelidade, principalmente as casadas.
Três, quatro, cinco, seis... Elas
estão minando!? Será possivel!?
-
E nisso de querermos fidelidade tentamos obtê-la a força. Sobretudo a força de
vigilância. Compreendo que uma mulher não entenda outra que aceita se envolver
com um homem que já tem dona. Mas compreendo também a outra que não entende
como pode valer a pena um relacionamento onde a fidelidade só existe a força de
vigilância, e não de honra a votos que se fez diante de um altar. Se era pra
ser a força, isso também deveria vir explicitado no contrato. Será que veio e
eu não vi? Será que são aquelas letras miúdas lá no final? Será que estão assim
“prometo ser fiel sempre que minha mulher fizer vigilância cerrada”?
Oito, nove, dez, onze... Todos os
homens do time têm esposa? Meu Deus, elas estão olhando pro meu marido!?
-
Sabe, quando eu era nova tinha um corpinho magro assim igual ao seu. Meus seios
eram duros. Minha pele firme. Tão firme quanto minhas vontades. Mas o tempo é
cruel, minha filha. Ele não dá a mínima pra firmeza de ninguém. Nisso se alia
com a vida e quebra qualquer firmeza. A quem eles não dobram? Dobram. Pisam.
Amassam. Esmigalham. Ah sim, esmigalham. O tempo e a vida adoram nos fazer
calar diante do que afirmamos categoricamente que jamais nos calaríamos. Diante
do que afirmamos categoricamente que jamais aceitaríamos. E nos doam situações piores do que as que
poderíamos imaginar. Ah, eles nos fazem baixar a cabeça e beijar o solo, nos
fazem lembrar que não passamos de pó e que todo dia é dia de ao pó retornar. E,
assim, vai nos matando antes de nós matar.
Doze, treze...
-
Sabe, minha filha, traição é coisa da vida. Perdoar traição também é. Aceitar
ser traído de novo, e de novo, e de novo é coisa da vida. Fingir que foi traída
só uma vez um 17 anos de casamento e 26 que se conhece também é. Em bilhões de
mulheres não há só uma que aceite ficar com um homem casado. Em bilhões de
mulheres não há só uma que aceite continuar em um casamento em que a fidelidade
é garantida pela nota de rodapé no final do contrato nupcial.
quatorze...
-
Tem hora que a vida folga o pé. E o tempo trás há alguns de nós certa
compreensão. A compreensão de que há situações que quem nos mantêm de cabeça
baixa e pó colado no pó somos nós mesmo, situações que não foram impostas nem
pela vida, nem pelo tempo, mas tão somente por nossa vontade de ter a força o
que não se pode obter a força.
-
O adultério começa e vive no coração. E coração é coisa que mulher nenhuma
muda. Só Deus. Se amas o teu marido pare de vigia-lo, peça a Deus por ele, não
pensando em tua felicidade, e na fidelidade que queres, mas na salvação dessa
alma que está perdida. Sim o infiel é um perdido.
-
17! Serão todas pro meu marido!
Ela não ouvirá nada do que fora dito pela
velha. Levantou-se e se aproximou do campo também. E ali ficou junto ao
rebanho. Olhando de um lado a outro, buscando colher dos olhos do marido infidelidade.
Em uma cadeira branca encardida, a menos
um metro da velha, alguém chorava baixinho, retirando uma aliança do dedo e depositando-a
sobre a mesa, pensava: “a infidelidade passada se perdoa, a que se está o tempo
todo tendo, não.”.
O foi assim que a velha sem perceber
plantou e regou uma semente em alguns minutos. E nem se deu conta disso. Coisas
que o tempo e a vida, quando decidem ser generosos, fazem.
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