Está em minhas veias, é o meu coração


"Mas estávamos com medo: não havia nada mais assustador que uma criança apática. Essa mesma palavra, agora, parece um eufenismo para um destino terrível."

(Uma Vida Pequena - Hanya Yanagihara)

Eu não queria vir a essa confraternização da empresa. Nunca quero. Mas sempre venho, pois quem decide se vou ou não a um lugar não sou eu, mas sim Fabiana, minha mãe. Ela está sempre dizendo nós isso, nós aquilo, nós aquele outro, mas nesse nós, só há o seu eu. Ela toma todas as decisões. Ela determina como será o dia da hora que acordamos a hora que vamos dormir. Ditaria nossos sonhos e nossos pensamentos se pudesse. Mas não pode.

Ela não pode. Mas, isso, pelo menos isso eu posso.  Eu posso. 

São os únicos campos em que posso, apesar de ter que mantê-los sempre em silêncio.

Minha vida é levar o indicador aos lábios.

Após “nós” concordamos que seria uma boa ideia tomar banho de piscina, vi que seria a oportunidade ideal pra executar uma ideia que foi gerada no mesmo dia que eu. Ela foi minhas veias e meu sangue, o oxigênio a entrar em meus pulmões. Saiu e entrou no meu primeiro choro, depois de levar uma infinidade de palmadas do médico.

Concordamos não por ser algo que aprecio, não por estar um calor escaldante, não nada disso “nós” consideramos o motivo pra uma criança tomar banho de piscina; concordamos sim que não haveria modo mais adequado de mostrar minha roupa de banho nova, linda e, sobretudo, de grife. A roupa de banho das demais meninas é rosa, e cheia de bichinhos, bichinhos de jardim, bichinhos mágicos, sol, lua, estrelas, princesas. A minha é branca e está toda coberta, em letras preta, pelo nome da marca a que pertence.

             Eu queria entrar na piscina vestida de arco íris, ou levando um jardim comigo. Mas não é isso que “nós” queremos. É o que eu quero, mas não o que “nós” queremos. E só o que “nós” queremos que importa, sim?

            Será que “nós” queremos o que estou pensando? Claro que não. É o que decidi querer pra poder esquecer que “nós” existimos.

É uma piscina azul, de água semi fria, pequena, mas está ótima. Eu só preciso de um tantinho que me cubra. Até uma banheira serviria. Mas, talvez, seja bom morrer em algo que você gosta. Não que desgoste de banheiras, mas piscinas são piscinas. E as conheço desde muito cedo. Talvez, a gente nutra o sonho de que eu venha a ser uma campeã olímpica ou algo assim.

Mas campões não afundam. Eu sim.

Estou afundando desde o dia em que fui gerada.

A piscina é toda minha, apesar de todos os risos, gritinhos e sacolejar de pés e mãos que há dentro dela, a minha volta. O que nós queremos que meu corpo boie de um cantinho, ou suba até o centro? Também nisso precisamos estar no centro, mãe?

O que nós queremos, mamãe?

Mamãe, porque não queremos morrer cobertas de flores? Fabiana, porque temos que morrer coberta do seu nome? Fabiana, Fabiana. Fabiana. Em meu corpo inteiro.

Mamãe, eu ficaria tão bonita boiando de rosa.

Alguma menina aceitaria trocar de roupa comigo? Não sei. Mas, talvez, eu ache alguma roupa perdida no banheiro. Crianças não são cuidadosas.

Sairei do canto um pouco, como quem sai da frente do pelotão de fuzilamento, mas não precisam baixar as armas, homens. Aguardem um momento. Aguardem apenas o momento de um condenado fazer seu último pedido. O meu é morrer de rosa, não de branco. Coberta das flores mais ordinárias do mundo, se possível, das que geram as ervas daninhas; e não de grife

Ah, sim, há uma aqui! Que sorte! Há uma roupa de banho aqui! Rápido! Rápido! Rápido! Oh, não, não posso deixar a grife no banco, seu lugar é no lixo.

Mas, rápido, Lianara, rápido, volte pra onde você estava, o pelotão te aguarda.

O que nós queremos? Isso não importa mais. O que eu quero? Eu queria apenas viver sendo amada e amando, errando igual a todo mundo, decepcionando e sendo decepcionada. Eu não queria morrer. Mas, essa vida de aparência, e de privações pra aparentar isso e aquilo já não é uma morte? Não é a primeira pá de terra jogada no caixão? Sim, é, e já vejo ela chegando, não marrom, mas azul, muito azul, meus olhos começam a ir pra onde eu quero. Pra onde nós queremos. Mas ao longe ouço uma voz desconhecida:

 

- Fabiana! Fabiana!

- Sim?

- Faz mais de um minuto que ela está submersa!

- Oh, normal! Não se importe com isso, ela vive fazendo isso. Seu recorde é três minutos! Há um nome pra isso que ela faz, é, é, é...  Ah, não me recordo!

- Oh, sim.

 

Sim, Fabiana, tem um nome pra isso: suicídio. E venho o praticando desde que nós decidimos que estávamos prontos para me gerar. 

 


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