Seu negro amor secreto/Dedica-se
ao teu fim.
Um rapaz bom e sábio dedicava o primeiro
momento do seu dia a passear em seu jardim, em um deles percebeu uma flor que
florescia apenas de vinte em vinte anos, e não vivia mais que dois dias,
contemplou-lhe tanto que até esqueceu de ser atencioso com as demais flores; apenas
a luz do luar foi capaz de remove-lo do estado contemplativo em que se
encontrava.
O bom jovem revirou-se na cama durante
toda a noite, e não via a hora de surgir no horizonte os raios de sol, para
novamente poder contemplar a bela flor. Quando eles surgiram, imediatamente
dirigiu-se ao seu jardim. Não havia em seus olhos espaço para as lágrimas que
se formaram ao ver que a a bela flor lá não estava. Havia sido carregado por um
vento mal, a pedido das flores enciumadas da atenção que o homem bom havia dado
a ela.
Seu pranto foi tão, que a terra em que a
flor outrora esteve ficou dele compadecida, e entregou a ele uma semente:
-
Bom homem, ao ser levada daqui sua querida flor deixou essa pequena semente sob
meus cuidados; a germinarei de um modo tão que será dez vezes mais bela que sua
mãe; e quanto a ela te concedo um desejo.
-
Oh, boa terra, oh, terna flor, desejo que vivas não por um dia, mas a
eternidade, de maneira que ao florescer eu possa te contemplar e também aqueles
que virão depois de mim.
Ao ouvirem isso as demais flores ficaram
ainda mais alarmadas, afinal uma flor eterna removeria delas e de sua
descendência qualquer chance de serem contempladas, assim aproveitaram-se do
momento de descanso da fértil terra pra dela tirar, furtivamente, a semente de
bela flor, a entregando ao vento mal com um só pedido:
-
Leve-a daqui para o lugar da terra em que mais detestada seria, um lugar onde
até as afeições dedicadas a ela, caso alguma seja, lhe faça só o mal e jamais o
bem, que seja capaz de tirar-lhe a imortalidade recém adquirida, e como a mais
seca das flores ela encontre seu fim.
O
vento mal a quem nada mais compraz que prejudicar e prejudicar gratuitamente,
imediatamente alçou a semente em voo e passou a percorrer todos os lugares conhecidos
e desconhecidos, não houve abismo em que não tenha entrado, nem montes sob os
quais não tenha subido, os lugares mais mórbidos e cruéis da terra ainda não
lhe pareciam mau o bastante para tão pequena semente, passou semanas e mais
semanas, meses a fio e não achava onde depor aquela semente.
Até que avistou uma casa cinzenta, pequena
em que havia uma jovem mulher que nada mais odiava que as belas flores, e
quanto mais belas fossem, mais ela as detestava, pois lhe corroía as entranhas
até mesmo o mais leve pensamento de algo ser mais belo, chamativo e apreciável
que ela, não se sabe como podia haver alguém que nutrindo tanto desprezo por
seus pares, podia ao mesmo tempo querer ser-lhes o centro de todas as
atenções.
Foi ao pé do muro da casa de tão estranha
mulher que o vento mal pôs a semente. E ela que olhos ainda não tinha, ali
chorou, e anos se passaram, e a semente virou um caule, e no caule surgiu um
botão, e do botão fios de cores e mais cores, que chamaram a atenção da jovem
mulher; que tentou arranca-la, mais não conseguiu, pois a beleza da flor era
tão tocante que a paralisava, e por um milésimo de segundo aquela mulher pensou
em algo além de si. Que mais rapidamente ainda sufocou e retirou-se portão a
fora, ordenou ao seu companheiro que fizesse o que ela intentara, mas ele
também não conseguirá; e a mulher má sentiu nisso uma traição, e magoa profunda
se abriu em seu coração, sair daquela casa era uma decisão irremediável, e não
importava quanto aquele homem argumentasse. Ela se foi, pois havia ali algo que
chamou mais atenção dele do que ela. E isso era inadimissivel!
O homem então reverteu toda sua fúria à
flor! Maldita e bela flor que tirara dali sua adorada! Em quem pisaria agora e
por quem seria pisado! Por ela! Por ela! Pela maldita e bela flor! Não pisado,
mas certamente haveria de nela pisar. A observou por dias, mas não admitia que
estava por ela encantado. E aos poucos foi se aproximando, se aproximando, e
pobre flor; a devoção, o amor, a paixão de tal homem, podia ser mais fatal que
qualquer outra emoção que surgisse naquele peito.
E foi a observando, e observando que notou
o primeiro polinizador vir até ela, e teve dificuldade de entender que de tal
necessitasse. E foi a observando, e observando, que viu um polinizador se
tornar dois, e dois três, e três quatro, e quatro filas e mais filas de
polinizadores, querendo o polem de tão encantadora flor. Se já não entendia a
necessidade de um, de modo algum aceitava filas, e culpava a ela por elas
existirem: “exibida” “para que esse espalhafato de cores!” sabia que não há
nada que mostra o quão desvaliosa é uma flor quanto ter um polinizador?
E a flor que a ele se afeiçoara tomava
suas palavras por verdadeiras, e assim começou a crer que havia algo de muito
errado em si, em seu modo de ser e existir. E atendendo aos comandos do homem
já não aceitava mais visitas. Fechava-se. E atendendo os comandos do homem
rejeitou o sol, a água, a terra; era toda ela tristeza profunda e vontade de
agradar aquele homem, e assim aceitou dar-lhe uma última demonstração de afeto:
ser trancada em uma sala escura. E lá ia morrendo dia após dia. Ela não
entendia porque era como era e o que havia de errado nisso. Mas se o homem
assim dizia, ele devia estar certo. E ela boazinha devia apenas aceitar.
Ela não conseguia ver que o que o homem
queria é que a flor não fosse flor, mas fosse uma mulher, se expusesse a luz
não como flor, mas sim como mulher; bebesse água não por raízes, mas pela boca,
não ficasse plantada, mas tivesse pernas e andasse, não houvesse em sim cores e
doçura, mas neutralidade, mentira, egoísmo, injustiça. Odiava que a flor fosse
flor. E também não entendia que não se pede ao ouro que se comporte como prata,
ou ao plástico que se comporte como areia, ao cordeiro que vire uma serpente e
a águia que vire uma minhoca, e, principalmente, a uma flor que seja o retrato
de uma mulher má. De não aceitação ela morria.
Mas longe, muito longe, alguém se dispôs a
andar mais que o vento mal, e assim passou a percorrer todos os lugares conhecidos
e desconhecidos, não houve abismo em que não tenha entrado, nem montes sob os
quais não tenha subido, e a terra que trazia consigo o disse que era na casinha
cinzenta que a bela flor jazia, e ao ver seu muro, foi se deixando guiar até
entrar na sala escura e lá a encontrar. Fraca, enferma, deprimida, a beira da
morte. Pegou-a em suas mãos, deu-lhe água, deu-lhe terra, e seu sorriso a
iluminou como se fosse o próprio sol.
E ela entendeu que era uma flor e que uma
flor cumpria ser. E, assim, sem nenhum pesar pelo homem que não a teria mais,
se deixava ser levada ao lugar que era seu por direito e aceitava ser o motivo
da contemplação de um homem que sabia que flor era flor, e nisso residia toda a
sua beleza. É que quando se é uma flor quanto mais como uma flor te comportas, vives
o teu feliz para sempre.
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