Um culpado chamado sol

 

“Em nossa sociedade, todo homem que não chora o enterro da mãe corre o risco de ser condenado à morte”.  (Albert Camus)

 

                   Começamos O Estrangeiro, livro de Albert Camus (1913 – 1960) a caminho de um velório, pois Meursault acaba de receber a noticia da morte de sua mãe, e usa isso como “desculpa” para faltar ao trabalho. Neste momento não desconfiamos, mas o personagem não terá a reação socialmente esperada diante desse acontecimento, também não sabemos que será essa reação e não o fato de ter matado um homem que o condenará a morte.

                    Esperamos que as pessoas reajam de duas maneiras perante a morte de um ente querido: de modo desesperado ou abatido, melancólico, sem perspectiva de como prosseguir a vida. Quando o protagonista não reage nem de uma maneira, nem de outra, mas sim com completa indiferença, e mais que isso vivendo sua vida como se nada tivesse acontecido.

                    Meursault sente sono, fome, sede e os satisfaz tranquilamente; além disso brinca com o colega de trabalho, paquera, vai à praia, ao cinema, torna uma mulher sua amante e viaja. Mas e o luto? Isso tudo que Meursualt faz, esperamos que faça, gradualmente, conforme o tempo passa. Até porque uma coisa é ir à praia, pós morte de um ente querido, como uma espécie de catalizador da dor que se sente, outra é ir a ela justamente por não sentir dor alguma, afinal: nada de significativo aconteceu. Pelo menos assim o leitor interpreta a reação de Meursault. O leitor e alguns dos outros personagens também. Porém, o próprio Meursault dirá que seja sua mãe, seja Marie (sua namorada) ou ele mesmo que morra, pronto, nada mais há fazer, é aceitar o fenômeno que aconteceu e vida que segue. É essa postura do personagem que leva a sua condenação. Não chorar a morte da própria mãe o leva a guilhotina, e não o fato de ter matado outro homem.

                     O que o condena é a fuga da normatividade, é a vivência de ser quem se é, por mais estrangeiro que isso seja. Ele é essa pessoa que o luto é vivido de outra maneira: a não vivência. Alguém de quem ao nos aproximarmos, surge a pergunta: se você morresse hoje, e pudesse escolher de que modo as pessoas que mais ama sentiriam e reagiriam a sua perda, qual seria ela: desespero, abatimento ou simplesmente seguindo a vida?

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